sexta-feira, 4 de maio de 2012

Amanheceu


03 de agosto de 1990. Jorge voltava para casa depois de um dia feliz por ter comprado a casa dos sonhos dele e de sua esposa Marieta, no Rio de Janeiro. Costumava sempre retornar às 19h, mas nesse dia, por ter ido fechar o negócio logo após o trabalho ele voltava às 21h. No caminho ele ouvia música alta e cantava alegremente, era sexta-feira e não via a hora de chegar em casa, contar a novidade a sua esposa e tomar um bom vinho na companhia de quem ele mais amava. Marieta estava grávida de 4 meses e Jorge só pensava na vida que os três iriam levar na nova casa.
Estava na Avenida principal perto de sua casa quando um carro desgovernado veio em sua direção, Jorge tentou desviar, mas os dois estavam em alta velocidade e os carros se bateram, o carro de Jorge capotou e o outro bateu em um poste. Os dois ficaram inconscientes e foram parar no hospital. Marieta em casa estranhava a demora do marido, mas logo recebeu uma ligação da policia dizendo que o seu marido tinha sofrido um acidente e estava no hospital, correu para lá junto com a sua irmã mais velha, chegando ao local logo lhe disseram: “Jorge estava muito ferido, o acidente foi grave e ele não resistiu, sentimos muito”. Ela não sabia o que pensar o que dizer, porém sabia muito bem o que sentia. A vontade de morrer era o mínimo, naquele momento ela descobriu como amava aquele homem e como queria dizer isso para ele pelo menos mais uma vez, isso não seria possível.
A criança no seu ventre continuava a crescer e foi isso que deu forças para Marieta continuar e querer viver, não por ela, mas por aquela vida que era fruto da vida de Jorge. Com o passar dos meses foi se acostumando com a dor e descobriu que o homem que dirigia o outro carro estava bem, vivia em um bairro próximo ao seu e naquele dia ele voltava bêbado para casa após uma confraternização do trabalho. A única coisa que ela sentia era ódio, ódio daquele homem que foi o culpado pela morte do seu amado.  Prometeu a si mesmo que iria se vingar, que o faria sofrer como ela estava sofrendo. Na sua mente só vinha à imagem de Jorge no caixão, deixando uma vida toda para trás.
Marieta planejou uma vingança, um plano cruel e se preparou para no dia seguinte ir à casa do rapaz, ela limpou a arma que tinha em casa e colocou na cabeceira da cama. Sem conseguir dormir, em prantos se ajoelhou e gritava perguntado: “Deus por que permitiu isso?”. Chorou e orou até pegar no sono. No dia seguinte ao invés de levar a arma, levou uma bíblia. Foi até a casa do assassino do seu marido, tocou a campainha e ele abriu a porta com um copo de cerveja na mão totalmente alegre. “Lembra-se do acidente do dia 03 de agosto que você sofreu e que um pai de família morreu? Esse pai era o meu marido e ele ia ser pai dessa criança que eu carrego na minha barriga”. O rosto do homem mudou de expressão e ele não conseguiu olhar nos olhos de Marieta. Logo depois ela falou algo que só entenderia totalmente depois de um tempo: “Eu não vim aqui para lhe agredir e nem lhe ferir com as minhas palavras, vim para lhe dá isso de presente e dizer que eu estou lhe perdoando”.
Em meio a um turbilhão de sentimentos, Marieta escolheu a melhor coisa, escolheu perdoar. Quando ela virou as costas, deixando o rapaz sem palavras ela sentiu paz, sentiu um alívio profundo, conseguiu respirar profundamente como há tempos não conseguia e voltou para casa feliz. O rapaz prometeu a si mesmo que nunca mais iria beber, começou a ler a bíblia que ganhou e decidiu viver de forma diferente, Marieta nunca soube disso. O perdão mudou a sua própria vida e a do homem. Sem ela saber, a atitude dela fez a diferença e mudou a vida de outro alguém. Ela escolheu fazer diferente.
Entendeu que perdoar não é esquecer, pois se lembrava de tudo quase todos os dias, mas percebeu que aquilo não lhe machucava mais, entendeu que todos somos passíveis de erros, somos falhos e que todos merecem uma segunda chance, até mesmo os piores. O perdão exige tempo, força, coragem e amor, amor pelo outro e por si mesmo. Não se consegue evitar traumas e erros, é verdade, mas permite que depois disso venha à paz e a vontade de recomeçar.
Você é capaz? Eu tenho certeza que sim.
É como passar dias no escuro e sorrir ao ver o sol nascer.

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