sexta-feira, 15 de junho de 2012

Duas bicicletas e um mundo



Todas as manhãs era minha rotina ir caminhar em um parque da minha cidade, além de achar que estava com uns quilos a mais, queria ficar saudável. Preferia o parque a academias lotadas, cheias de gente suada com o cheiro estranho, lá pelo menos eu via natureza e descansava a mente, era tão bom que eu não me importava de ir sem o meu mp3, gostava de ficar com os meus próprios pensamentos. 
Certo dia cheguei mais cedo para minha terapia natural e passando por um ponto do parque olhei de longe (não tão longe assim) um rapaz, sentado debaixo de uma árvore com um livro. Ele lia "O mundo ao lado", usava uma camisa simples, bermuda, all star, uma pulseira meio hippie, óculos, por último e não menos importante tinha uma tatuagem na perna. Não, eu não observei tudo isso de uma vez só, eu acelerei os passos, corri para chegar mais uma vez naquele mesmo ponto e o ver novamente, tinha algo ali que me fazia ficar com os olhos vidrados. Na terceira volta, correndo para chegar ao mesmo lugar, percebi que não tinha mais ninguém sentado debaixo da árvore. 
Deixei passar, mas quando cheguei em casa fui pesquisar sobre o livro e para minha surpresa contava a história de um cara que dava a volta ao mundo com uma bicicleta, indo por vários países, conhecendo várias culturas, povos, comidas e tudo isso de bike. Eu pensei: "É perfeição. Sonho!". Na manhã seguinte segui para minha rotina e o vi no mesmo lugar, com a cabeça em outro mundo, mas dessa vez ele estava com um caderno e um lápis, pensei que ele poderia escrever e isso ficou mais interessante ainda. Eu só pensava que em um lugar aonde todos iam para cuidar do corpo, até eu mesma, tinha um cara que ia para cuidar da mente. Assim seguiu durante uns dias (tantos que até notei algo diferente no seu rosto, era barba crescendo), até que, claro, ele percebeu que eu o observava, eu fiquei constrangida, confesso, porém eu repito, tinha algo ali que me fazia ficar com os olhos vidrados. Eu disfarcei, fingi que não estava olhando e notei que os olhos dele também me seguiam. 
Ficamos assim, trocando olhares meio tímidos. Um dia ele sorriu, um daqueles sorrisos de canto de boca que para mim significou "Eu sei que você me olha". Eu sorri de volta e dizia a mim mesma que não seria eu a primeira a falar, iria esperar. 
Por situações do dia-a-dia eu deixei de ir ao parque por umas duas semanas, lembrei-me dele, porém mais uma vez deixei para lá. Depois disso, em uma segunda-feira, quando voltei para a caminhada, não vi o rapaz que lia um livro interessante e tinha uma tatuagem na perna, enfim... A caminho do meu carro, no final, olho um papel no vidro segurado pelo limpador do para-brisa. Peguei o papel, abri e vi uma das coisas mais bonitas que alguém já tinha me dado de presente, era um desenho meu, nos mínimos detalhes em uma folha de caderno feito de lápis e logo embaixo escrito: "Por onde você andava?". Eu fiquei paralisada, com aquele sorriso besta nos lábios e procurando o tal rapaz, só poderia ter sido ele. O lápis e o caderno não eram para letras, eram para dá significado as palavras, eu pensava. Fui para casa pensando em como tudo aquilo era estranho e surpreendente. 
No outro dia fui pronta para deixar de lado o orgulho feminino e falar com ele. Ele estava lá debaixo da árvore, eu me aproximei e perguntei: 
- Aquele desenho, ele é seu? 
- É sim, e a pergunta também. Respondeu 
- Eu andava meio ocupada, mas estou de volta. Você desenha muito bem e obrigada. (Eu ria sem perceber) 
- Por nada, menina. Você pode me dizer o seu nome? 
- Vanessa. Me diz o seu? 
- Lucas. Quer sentar? Eu não me importo de dividir a minha toalha.
Essa frase chegou aos meus ouvidos como "Eu não me importo de dividir o meu espaço e nem a minha vida com você". 
Sentei e conversamos durante um tempo, falamos sobre as nossas vidas, ocupações, deveres, ele me deu um pouco da sua água e tivemos um primeiro encontro sem perceber. Não trocamos telefone, nem e-mail, nem sobrenome e nem nada que me fizesse achá-lo, só tinha a certeza que na manhã seguinte o veria e foi o que aconteceu. Dessa vez levei uma fotografia que havia feito de uma árvore que era perfeita para um segundo encontro, o primeiro na nossa mente. Ele recebeu a foto, elogiou e disse que se pudesse queria conhecer o lugar, o levei e lá ele nos desenhou juntos debaixo da tal árvore e no final escrito: "E ai, quais são seus planos? Eu até que tenho vários, se me acompanhar no caminho posso te contar". Eu olhei nos olhos dele e sorri, um sorriso que queria dizer "Eu quero ouvir".
Por fim, começo na verdade, muitas coisas aconteceram, até hoje não temos título de namorados, mas temos uma tatuagem em forma de anel no 'seu vizinho' da mão esquerda. E sabe o livro? Li, sonhamos, planejamos, compramos duas bicicletas e partimos.

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